Faço uma invasão neste blog, para postar com frieza de detalhes sobre as minhas companhias aéreas. Não, não vou falar sobre as empresas em si, mas sim, sobre as duas pessoas que sentaram ao meu lado durante as 9 horas de voo percorridas de Dallas até SP....o texto em aspas é toda a fala da dona ZilFa.
Do meu lado esquerdo, com cerca de 65 anos, Dona Zilfa e suas divagações sobre tudo.
"Ai bem, você me ajuda aqui, é que eu não falo nada de inglês... que bom que você fala portugues, então, eu vim de XXXX , fui para o casamento da minha filha - ela conheceu o moço na internet - mas como ele é da nossa igreja então tá tudo em família né? então, mas ai menina, to tão cansada, porque lá eles só falam em inglês né! Ai, daqui a uma hora eu tenho que tomar meu remédio, porque eu tenho pressão alta, sabe? e tenho artrose, e to com infecção por causa de pedra na vesícula, por isso vou ter que tomar antibiótico daqui pouco também... então, como eu ia te contando, tava na casa da minha filha, ela é adotada, adotei duas meninas, mas já estão de vida feita já, se dão tão bem... nossa, você tem uma carinha tão familiar, eu acho que eu te conheço.... hum... não sei, bom, eu daqui a pouco eu tenho que ir no banheiro pra me picar, eu te falei que eu tenho diabetes? pois é, tenho, ai filha a gente vai ficando velha e vai acumulando as desgraceiras né?"
E então passou um tempo e eu cochilei e sinto alguém me cutucando.
"Acorda, vão servir a comida" e só serviram suco, como demorou eu comentei que ia cochilar de novo, então minha companheira disse:
"Pode dormir tranquila viu, quando a janta vier eu te acordo" nem bem passou 10 minutos e lá estava ela me cutucando.
Serviram o jantar - comi, comida de avião, tudo pequeno, meio mole, meio quente de um lado e meio estranho do outro... comi metade de cada coisa apenas.
"Você come tão pouquinho, precisa comer mais, ahhh, lembrei, você parece com a doutora fulana, minha fonolaudióloga, nooossa como você parece com ela, igual"
Cada assento tem uma TV acoplada, liguei a minha, liguei a dela, ajustei o volume, conectei o fone de ouvido e entreguei.
"Ai bem, você ajusta para mim o volume, não escuto nada"
Aumentei TODO o volume, volume no máximo.
"Hum, não escuto, eu já te falei que não escuto direito? Então!
Dormi, um tempão, e acordei com ela me olhando.
"Nossa, você dorme hein? pois eu não preguei o olho, não consigo dormir em avião, dor nas costas. Eu te falei que tenho hérnia de disco? Duas! Médico falou para operar mas eu não, vai que fico aleijada"
Eu já ia pensando em dormir de novo, quando ela falou:
"Vai dormir outra vez? Dorme, quando o café vier pode deixar que eu te acordo"
Resumindo a história, já que ficamos por 9 horas sentadinhas uma ao lado da outra, a Dona Zilfa é uma flor de pessoa e também uma farmácia ambulante, eu não sei como ela não ficou presa na imigração por tráfico ou algo do gênero dada a quantidade de remédio que ela tomava...
Uma pessoa simples, honesta, íntegra...coisa rara hoje em dia.
Ah, e ela foi ao banheiro aplicar a insulina, quando voltou me disse:
"pronto, já foi, mas hoje doeu viu! banheirinho pequeno!"
depois eu conto da companhia que sentou do lado direito... outra comédia.